📅 domingo, 20 de setembro de 2026

Posse da ACIJ e o discurso que causou mal estar entre políticos e empresários de Joinville

Discurso de Bertani causou mal-estar durante a posse da nova diretoria da ACIJ na segunda passada

Há discursos que acertam, pois mandam recado certeiro e sem meias palavras. Há discursos que erram na forma, no momento e no alvo.

Foi exatamente essa a impressão deixada pelo pronunciamento de despedida do então presidente da Associação Empresarial de Joinville (ACIJ), Guilherme Bertani, durante o jantar de posse da nova diretoria da entidade. Tema foi abordado aqui neste portal pela minha colega Maga Stopassoli (leia aqui)

O evento é um dos mais tradicionais do calendário empresarial de Joinville.

Reúne empresários, lideranças políticas e representantes da sociedade civil em um ambiente onde os discursos, muitas vezes, são mais aguardados do que o próprio jantar.

Quem participa sabe que aquele palco serve para transmitir mensagens, estabelecer prioridades e, não raramente, cobrar providências dos governos.

Nos últimos anos, o evento deixou o centenário Harmonia Lyra e passou a ser realizado na casa de shows Joinville Square Garden.

Perdeu parte do charme histórico, mas preservou sua relevância política e econômica. Continua sendo um espaço privilegiado para lançar recados que ecoam muito além do salão.

Foi justamente nesse ambiente que Bertani decidiu direcionar suas críticas ao MDB, responsabilizando o partido pelo atraso na duplicação da BR-280, especialmente no trecho entre Araquari e São Francisco do Sul.

A preocupação é legítima. A duplicação da BR-280 é uma das principais demandas de infraestrutura do Norte catarinense e representa um gargalo logístico que compromete a competitividade da região.

O problema atravessou governos. Passou pela administração de Jair Bolsonaro e continua no governo de Luiz Inácio Lula da Silva sem a velocidade que empresários e moradores esperam.

Mas, ao transformar um problema histórico em responsabilidade de um único partido, o discurso perdeu força. A infraestrutura da região não é consequência de um governo isolado nem de uma única legenda.

É resultado de anos de baixa capacidade de articulação política, prioridades nacionais diferentes e, também, de uma mobilização regional que perdeu intensidade.

ACIJ tem histórico de protagonismo e amplificação de debate.

A própria ACIJ, que historicamente foi protagonista das grandes conquistas de Joinville, poderia ter aproveitado a ocasião para ampliar esse debate.

Foi a entidade uma das principais lideranças da mobilização que tornou possível a duplicação da BR-101 Norte. Também teve papel decisivo ao denunciar, anos depois, os problemas estruturais da rodovia recém-duplicada. Liderou movimentos pela ampliação da capacidade energética da cidade e participou ativamente da articulação que trouxe para Joinville um campus da Universidade Federal de Santa Catarina com o inédito curso de Engenharia da Mobilidade.

Esse histórico mostra que a força da ACIJ sempre esteve na capacidade de unir diferentes setores em torno de causas coletivas, e não de apontar culpados.

Cobrança por infraestrutura poderia ser ampliada

Aliás, não faltam desafios estruturais que mereceriam uma cobrança firme e suprapartidária. A duplicação da rua Dona Francisca, por exemplo, continua sendo promessa recorrente em campanhas eleitorais enquanto impacta diariamente algumas das maiores empresas do município. Assim como a BR-280, trata-se de uma obra que exige ação coordenada entre diferentes esferas de governo e mobilização permanente da sociedade organizada.

Ao concentrar as críticas em um único partido, Bertani reduziu um debate que deveria ser regional. Perdeu a oportunidade de convocar empresários, lideranças políticas e governos para reconstruir uma agenda comum em defesa da infraestrutura de Joinville.

O diagnóstico estava correto. A BR-280 exige urgência. Mas o discurso teria sido muito mais eficaz se lembrasse que os atrasos são de governos, não apenas de partidos; de sucessivas gestões, não de uma única sigla. Em vez de dividir, poderia ter reunido. Em vez de procurar um culpado, poderia ter reforçado uma causa.

No fim, ficou a sensação de que o ex-presidente da ACIJ acertou ao chamar atenção para um problema real e urgente, mas limitou ao escolher um caminho mais político do que institucional. A infraestrutura de Joinville continuará sendo um desafio. Justamente por isso, ela precisa ser tratada como uma causa permanente da cidade.

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