Enquanto a eleição presidencial entra na última semana, a política de Joinville já começa a virar a página. Saem de cena as disputas para a Assembleia Legislativa e a Câmara Federal e entram no tabuleiro duas eleições que, à primeira vista, parecem não ter relação entre si.

Deputado Federal eleital com recorde de votos, Sargento Lima se coloca como prefeiturável em 2026 e não precisa nem anunciar candidatura.
A primeira será decidida por apenas 19 votos, dentro da Câmara de Vereadores.
A pergunta que circula nos corredores é quem vai presidir o Legislativo municipal nos próximos dois anos.
A segunda será decidida por mais de 430 mil eleitores, em outubro de 2028, quando Joinville escolherá quem vai governar a maior cidade de Santa Catarina.
A distância entre as duas disputas é apenas aparente.
A presidência da Câmara é a primeira peça que se movimenta no tabuleiro da sucessão municipal.
E, na fila dos possíveis candidatos à Prefeitura, dois nomes saíram das urnas de outubro com um capital político que os coloca à frente de muitos concorrentes, sem que precisassem anunciar qualquer intenção: Sargento Lima (PL) e Fernando Krelling (MDB).
Mas há outros personagens nessa disputa.
A prefeita Rejane Gambin (Novo), naturalmente interessada na reeleição, o vice-governador eleito Adriano Silva (Novo) e um nome que começa a circular nos bastidores: o secretário estadual da Fazenda, Cleverson Siewert.
O Novo precisa de um endereço político em Joinville

Para o Novo, a disputa pela presidência da Câmara tem um peso que vai muito além da cadeira.
O partido saiu das eleições de outubro sem conseguir eleger um deputado estadual de Joinville.
Matheus Cadorin e Neto Petters disputaram parte do mesmo eleitorado e nenhum dos dois conquistou uma vaga na Assembleia Legislativa.
Adriano Silva chega à vice-governadoria sem um único correligionário de Joinville na Alesc.
Uma eventual presidência da Câmara nas mãos de Neto Petters Seria, portanto, uma importante base institucional para o Novo na cidade que o partido governa há seis anos.
Neto faz as contas e já teria 13 votos computados.
O PL chega à disputa em situação diferente.
Foi o partido que mais se fortaleceu nas urnas em Joinville, elegendo dois deputados federais e dois dos três estaduais ligados à cidade.
É um capital político que permite ao partido escolher entre apoiar uma candidatura de outro grupo ou reivindicar a presidência da Câmara para si.
E o PL tem motivos de sobra para olhar a eleição interna do Legislativo já pensando em 2028.
O MDB, por sua vez, ganhou um argumento que não tinha antes de outubro.
Fernando Krelling foi o candidato a deputado estadual mais votado dentro de Joinville, com mais de 40 mil votos na cidade.
Uma eventual eleição de Adilson Girardi para a presidência da Câmara seria uma maneira de transformar esse resultado eleitoral em maior influência política.
Há ainda Lucas Souza, do Republicanos, que exerce a liderança do governo na Câmara e mantém uma relação de confiança com a prefeita Rejane Gambin.
São quatro forças políticas com interesses diferentes, mas que precisam encontrar algum ponto de convergência para definir quem comandará o Legislativo.
A oposição pequena que pode decidir
A oposição saiu das eleições de 2026 com pouco a comemorar.
Vanessa da Rosa (PT), por exemplo, somou 21.545 votos na disputa à Câmara Federal, insuficientes para conquistar uma vaga.
Mas o plenário da Câmara de Vereadores pode oferecer à esquerda um protagonismo que as urnas de outubro não lhe deram.
Em uma Casa com 19 vereadores, uma maioria exige dez votos.
Se os partidos que sustentam ou orbitam a administração municipal chegarem divididos à eleição da Mesa Diretora, poucos votos poderão decidir o resultado.
É nesse cenário que a oposição precisará fazer uma escolha.
Poderá negociar espaço institucional em troca de apoio a uma candidatura, ampliando sua presença política nos dois anos que antecedem a eleição municipal.
Ou poderá manter distância das articulações e preservar o discurso de oposição para 2028.
As duas alternativas têm custos.
A primeira pode comprometer a coerência política.
A segunda pode significar abrir mão de influência em uma decisão importante para o futuro da cidade.
Na política, nem sempre quem tem mais votos controla o resultado.
Às vezes, quem tem poucos votos acaba decidindo quem vence.
Ainda é cedo para a Prefeitura? Os nomes já estão aí

A eleição municipal está a dois anos de distância, mas alguns nomes já começam a circular com mais intensidade nos bastidores.
O primeiro deles é Sargento Lima (PL), que recebeu 63.693 votos em Joinville, quase metade dos 128.333 votos que garantiram sua reeleição à Câmara Federal.
É uma votação expressiva e que coloca Lima em uma posição privilegiada para qualquer discussão sobre a sucessão municipal.
Não significa, evidentemente, que os votos para deputado se repetiriam em uma eleição para prefeito.
Mas ignorar esse resultado seria um erro de avaliação política.
Fernando Krelling (MDB) também entra nessa conversa.
Com 40.035 votos em Joinville, consolidou sua força eleitoral e ampliou o espaço político que já ocupava no município.
Os dois saíram de outubro com capital eleitoral próprio.
E, até agora, nenhum deles precisou anunciar qualquer projeto para 2028.
Há, entretanto, dilemas importantes.
O primeiro é transformar a votação de deputado em uma candidatura competitiva ao Executivo.
São eleições diferentes, com adversários diferentes e, principalmente, com uma exigência maior de apresentar um projeto para governar a cidade.
O segundo envolve os mandatos conquistados.
Krelling iniciará seu terceiro mandato na Assembleia Legislativa e já enfrentou críticas relacionadas à possibilidade de deixar cargos eletivos para disputar outras funções.
Lima poderá enfrentar questionamento semelhante.
Joinville passou quatro anos com apenas um deputado federal de base eleitoral na cidade e comemorou, em outubro, a conquista de duas cadeiras em Brasília.
Se Lima disputar e vencer a Prefeitura em 2028, terá de deixar a Câmara Federal no meio da legislatura.
A vaga continuará pertencendo à representação de Santa Catarina, mas não há garantia de que o suplente tenha a mesma ligação política com Joinville.
O argumento do movimento Cada Voto Conta, de que a cidade precisa ampliar sua representação em Brasília, poderá se transformar em munição contra uma eventual candidatura de Lima.
É uma contradição que precisará ser enfrentada.
A surpresa que vem da Fazenda

Há ainda um terceiro elemento que pode alterar completamente o cenário: os interesses políticos que vêm de Florianópolis.
Novo e PL estão aliados no governo de Santa Catarina.
Jorginho Mello e Adriano Silva formam uma parceria que terá reflexos diretos na sucessão municipal de Joinville.
É nesse ambiente que aparece o nome de Cleverson Siewert, atual secretário estadual da Fazenda.
Com perfil técnico e experiência em gestão, Siewert integra o núcleo do governo Jorginho Mello e é visto nos bastidores como um nome que poderia entrar na discussão sobre o futuro político de Joinville.
A hipótese, ainda distante de qualquer definição, abre uma série de perguntas.
A primeira envolve Rejane Gambin.
A atual prefeita assumiu a administração municipal com a saída de Adriano Silva e deverá buscar a reeleição em 2028.
Como ficaria sua candidatura se surgisse, dentro do próprio campo governista estadual, outro nome com apoio do Palácio?
A segunda pergunta envolve Sargento Lima.
O PL teria disposição para apoiar um candidato de perfil técnico, ainda sem votação própria testada nas urnas, em vez de investir em um deputado federal que acaba de conquistar mais de 63 mil votos em Joinville?
Essa é uma conta que o partido terá de fazer, caso a hipótese de Siewert ganhe força.
E dificilmente será uma decisão sem consequências.
Para Adriano Silva, a equação também começa a ficar complicada.
O vice-governador eleito continuará sendo um dos principais padrinhos políticos da sucessão municipal.
Foi eleito prefeito em 2020, reeleito em 2024 e deixou a administração para integrar a chapa de Jorginho Mello.
Sua influência em Joinville é evidente.
Adriano terá de equilibrar a relação com Rejane Gambin, os interesses do Novo, a aliança estadual com o PL e os projetos políticos que poderão surgir no entorno do governador.
É um jogo em que apoiar um nome significa, muitas vezes, contrariar outro.
A primeira jogada de 2028
A eleição para a presidência da Câmara de Vereadores será, portanto, muito mais do que uma disputa interna por cargos e espaços políticos.
Será o primeiro teste de força entre os grupos que pretendem influenciar a sucessão municipal.
O Novo precisa preservar sua base de poder.
O PL quer transformar a força das urnas em protagonismo político.
O MDB tenta ampliar seu espaço com o resultado de Fernando Krelling.
O Republicanos procura manter sua influência na administração municipal.
E a oposição observa as divisões, sabendo que pode ter votos decisivos.
Ao mesmo tempo, a corrida pela Prefeitura já apresenta uma régua eleitoral.
Sargento Lima recebeu 63.693 votos em Joinville. Fernando Krelling, 40.035.
Rejane Gambin tem a máquina administrativa e a possibilidade de disputar a reeleição.
Adriano Silva continua sendo um dos principais articuladores políticos da cidade.
E Cleverson Siewert surge como uma possibilidade ainda dependente das articulações do governo estadual.
Os padrinhos podem preferir outros nomes.
O Palácio pode ter outros planos.
E os votos de uma eleição proporcional não se transferem automaticamente para uma disputa majoritária.
Mas uma coisa parece clara: a eleição municipal de 2028 começou antes mesmo de terminar a eleição presidencial de 2026.
E a primeira disputa não será diante de 430 mil eleitores. Será diante de apenas 19 vereadores.