📅 sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Joinville elegeu cinco deputados, votos para candidatos de fora e uma pergunta incômoda

O rescaldo da eleição no primeiro turno em Joinville tem mais pontos para refletir do que a comemorar.

A cidade garante cinco mandatos no Legislativo, sendo três na Assembleia Legislativa e dois na Câmara Federal, exatamente a metade do “sonho de dez” que as entidades empresariais projetaram. Mas o resultado mostrou uma dura realidade que o projeto Cada Voto Conta não esperava.

A palavra fracasso pode soar agressiva ao olhar apenas para os capítulos finais. Joinville fez o momento e o esforço para eleger mais representantes, mas faltou algo a mais. A pergunta incômoda que fica é: Deu certo o movimento Cada Voto Conta?

O deputado Fernando Krelling (MDB) confirmou a reeleição com 70.506 votos, sendo 40.035 deles dentro de Joinville. Foi um resultado robusto, que o consolida como o nome mais votado da cidade para a Assembleia Legislativa e supera com folga a própria projeção. Krelling vira favorito à presidência da Alesc e nome cogitado à prefeitura de Joinville em 2028.

Outro deputado com sucesso nas urnas foi Maurício Peixer (PL) que também se reelege, com 44.158 votos no total, mas aqui está o primeiro dado que acende o sinal de alerta. Peixer recebeu apenas 15.533 votos em Joinville. Mais de dois terços da votação de Peixer foi buscada fora da cidade.

A revelação de 2026 foi na terceira vaga com o vereador Wilian Tonezi (PL), com 42.342 votos, 35.485 deles joinvilenses, o nome novo do trio, e o único ponto de renovação real. Depois de ser o mais votado na eleição para vereador em 2024, Tonezzi chega com discurso alinhado aos valores da direita.

Mas quem não resistiu foi o deputado Matheus Cadorin (Novo), que na reta final ficou de fora e tem uma grande reflexão para fazer, principalmente dentro do partido com o lançamento de dois candidatos à Assembleia. Outro nome que ficou de fora foi Gilberto Leal (Podemos), apontado nos bastidores como o aliado mais próximo do então pré-candidato a vice-governador Adriano Silva.

O resultado é brutal para quem apostava em crescimento. Os joinvilenses na Alesc em 2027 tem exatamente o mesmo tamanho da de 2023, com Cadorin saindo e Tonezi entrando. Nem a meta mais modesta, de quatro ou cinco nomes, se confirmou.

Na Câmara Federal, o único crescimento real

Para a Câmara Federal, o resultado é o inverso. Joinville sai de um único deputado federal eleito em 2022 (Zé Trovão, então com 71 mil votos) para dois em 2026. O sargento Lima (PL) foi eleito com 128.333 votos, dos quais 63.693 vieram de dentro da cidade. Foi o mais votado da cidade, um número também robusto que lhe coloca em patamar de também brigar pelo comando da cidade em 2028.

Ao seu lado em Brasilia estará  Zé Trovão (PL), eleito com 89.830 votos, mas apenas 20.115 deles em Joinville. O deputado federal reeleito mante-se fiel ao discurso bolsonarista e aumento sua votação em 2026.

Nenhum dos outros nomes joinvilenses à Câmara Federal, como  Vanessa da Rosa (PT), que somou apenas 21.545 votos, Darci de Matos, Rodrigo Coelho e Érico Vinícius, aparece na lista final dos 16 deputados federais eleitos por Santa Catarina. A bancada federal da cidade para os próximos quatro anos é, como esta coluna já havia previsto, inteiramente do PL.

O Cada Voto Conta não atinge objetivo de representatividade

Apuração final expõe o ponto mais incômodo para as entidades por trás do Cada Voto Conta , iniciativa da ACIJ, Acomac, Ajorpeme, CDL e OAB que nasceu, ainda em 2024, com o objetivo declarado de aumentar a representatividade de Joinville no Legislativo, reduzindo a pulverização de pré-candidaturas e aproximando o eleitor joinvilense dos nomes da própria cidade.

O projeto conseguiu abrir o diálogo para diminuição das candidaturas e também da transferência de domicílio eleitoral (mais de 18 mil títulos foram transferidos para a cidade), mas ficou longe do objetivo de representatividade. Na Alesc, a cidade elegeu exatamente o mesmo número de nomes que elegia antes de o movimento existir.

E há um segundo dado, o eleitor joinvilense não deixou de votar em nomes de fora da cidade, pois votou, e em volume relevante, em candidatos sem raiz local. Julia Zanatta (PL),  a deputada federal mais votada de Santa Catarina, com mais de 560 mil votos no estado, recebeu sozinha 30.989 votos dentro de Joinville.

O vereador de Balneário Camboriú eleito deputado federal Jair Rena Bolsonaro, com 131.555 votos no estado, somou 9.920 votos em Joinville. Gilson Marques (Novo) levou 5.578.

Somados, esses três nomes de fora da cidade receberam dos joinvilenses mais de 46 mil votos — um volume que, comparado a qualquer um dos cálculos que esta coluna registrou ao longo de setembro sobre o que faltava para eleger um quinto ou sexto nome local, teria feito diferença real.

O eleitor de Joinville, em outras palavras, seguiu dividido entre votar local e votar em quem aparece com as pautas mais nacionalizadas.

Adriano Silva vira vice-governador sem nenhum deputado do Novo

O resultado estadual coroou Adriano Silva, ex-prefeito de Joinville, como eleito vice-governador de Santa Catarina na chapa de Jorginho Mello (PL), reeleito já no primeiro turno com 68,31% dos votos válidos.

Mas Silva concorreu, e venceu, pelo Novo, não pelo PL do próprio governador. E os nomes do Novo que disputavam a Alesc ficaram de fora.

O resultado é que Adriano Silva assume o segundo posto mais importante do estado sem um único correligionário na delegação joinvilense da Assembleia. Krelling é do MDB, Peixer e Tonezi são do PL, o partido do governador, o que pode ajudar Adriano por proximidade de chapa, mas não substitui uma base partidária própria.

Gilberto Leal, apontado nos bastidores como o aliado mais pessoalmente ligado a Silva nessa eleição, também não se elegeu.

A preocupação  é que uma bancada joinvilense maior não garantiria, sozinha, capital político para Adriano Silva dentro do próprio governo e  ganha agora um contorno mais concreto ainda. A bancada não  cresceu e o partido do novo vice-governador não elegeu ninguém na cidade onde ele construiu a carreira política de sucesso.

A pergunta incômoda

A apuração fechada confirmou o mais duro dos prognósticos que esta coluna vinha fazendo desde setembro: Joinville garante cinco mandatos, evita o pesadelo de ficar sem representação em Brasília, mas não chega perto do sonho que movia o discurso do Cada Voto Conta.

Para Joinville, a eleição de 2026 deixa uma pergunta incômoda: se consolidar candidaturas locais não foi capaz de vencer a atração de nomes de fora, talvez o problema nunca tenha sido só o excesso de candidatos e sim também a qualidade dos candidatos.

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